O amor segundo: Alberto Caeiro

O amor é uma companhia. Já não sei andar só pelos caminhos, porque já não posso andar só.

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O amor segundo: Michelangelo Antonioni [2]

Hoje, quando acordei, você ainda dormia. Aos poucos, acordando, senti sua respiração leve. Através dos cabelos que escondiam seu rosto, vi seus olhos fechados e senti uma comoção subindo à garganta. Tive vontade de gritar e acordá-la, pois o seu cansaço era profundo e mortal. Na penumbra, a pele dos seus braços e pescoço estava viva e eu a sentia morna e seca. Queria passar os lábios nela, mas o pensamento de perturbar seu sono e de ainda tê-la em meus braços, me impedia. Preferia tê-la assim, como algo que ninguém tiraria de mim, pois só eu a possuía. Uma imagem sua para sempre. Além do seu rosto, via algo mais puro e mais profundo onde eu me refletia. E via você numa dimensão que englobava todo o tempo da minha vida, todos os anos futuros e os que vivi antes de conhecê-la, mas já pronto para encontrá-la. Este era o pequeno milagre de um despertar. Senti pela primeira vez que você me pertencia não só naquele momento, e que a noite era eterna ao seu lado. No calor do seu sangue, dos seus pensamentos e da sua vontade, que se confundia com a minha. Por um momento, entendi o quanto te amava, Lidia, e foi uma sensação tão intensa que meus olhos se encheram de lágrimas. Eu pensava que isso jamais deveria terminar. Que toda nossa vida deveria ser como esse despertar. Senti-la não minha, mas uma parte de mim. Uma coisa que respira comigo e que nada pode destruir, a não ser a indiferença de um hábito que considero a única ameaça. Então, você acordou, e,  sorrindo, ainda adormecida, me beijou, e eu senti que não havia nada a temer. Que seríamos sempre como aquele momento, unidos por algo que é mais forte que o tempo e o hábito.

O amor segundo: Homem do Subsolo (Dostoiévski)

Durante toda a vida, eu não podia sequer conceber em meu íntimo outro amor, e cheguei a tal ponto que, agora, chego a pensar por vezes que o amor consiste justamente no direito que o objeto amado voluntariamente nos concede de exercer tirania sobre ele. Mesmo nos meus devaneios subterrâneos, nunca pude conceber o amor senão como uma luta: começava sempre pelo ódio e terminava pela subjugação moral; depois não podia sequer imaginar o que fazer com o objeto subjugado.

S. Bernardo

Talvez eu nunca tivesse visto “S. Bernardo” porque a vida me aguardava a indicação de Ricardo Ramos Filho, neto de Graciliano Ramos, a quem tive o prazer de dar meus ouvidos num encontro na última semana. Ele citou o filme, bem como os feitos pelo Nelson Pereira dos Santos.

O Paulo Honório de Othon Bastos não é o meu (e talvez não fosse o de Graça, pois ele não se dá a descrevê-lo fisicamente na narrativa). Madalena também não é a que formulei em minha mente ao ler a obra.

Assim como há “S. Bernardo” de Graciliano, há “S. Bernardo’ de Leon Hirszman a partir de Graciliano. E ele é magistral. Fiel a diversas passagens integrais do livro, algumas cenas, no entanto, superam as que eu havia montado com as descrições do próprio autor – como a de Madalena deixando a igreja, para citar apenas uma.

E justamente por isso é incrível superar a forçosa prosa da adaptação de obras literárias para o cinema – claro que com Hirszman não me arrisco em nada na afirmação. Mas esse diálogo é capaz de nos dar peças genuínas e preciosas.


Com o filme pronto, Caetano Veloso assina a trilha. Enquanto vê as cenas, entoa “esboços de melodias e pedaços de cantos soltos” – como ele mesmo a define.

 

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O que significa sair de casa para ver um filme sozinha?

(Texto publicado originalmente no Coletivo We Love.)

A excitação em buscar pelas fileiras o lugar marcado só não é maior que o alívio ao sentar na poltrona. Uma espécie de atenuação de tudo: dos ruídos da cidade, do fluxo de sensações que pensamentos irrefreáveis me causam, do mundo que me é alheio e indiferente. Como uma prazerosa suspensão temporal, duas horas equivalem a quilômetros de distância de qualquer esquina da minha vida.

Acredito que o cinema venha assumindo esse papel desde a adolescência – ou de quando estabeleci um hábito que ainda me é extremamente caro e valoroso: sair de casa para ver um filme sozinha.

Pode parecer um tanto quanto sorumbática a experiência, mas, para mim, é como que um ritual. É na sala de cinema que me permito transparecer, esconder, dissimular e compartilhar. Quando me sinto angustiada, ansiosa, melancólica ou se carrego uma felicidade sem fim, se me apaixono, se me inteiro: é no escuro, assistindo à vida dos outros, me jogando em outras histórias e temporalidades, que me realizo. E me safo.

Aliviar-se, penso aqui, deveria ser mania. Descobrir o que tem a capacidade de lhe preencher e esvaziar – processo duplo e conjunto – é saída de emergência e abraço. E pode ser vício a sobreposição de alívios. No ano passado, decidi que precisava fazer um outro furo na orelha (essa dos furos e orelhas já notei que devo ter certa prudência). Com o entusiasmo concentrado numa vermelhidão auricular, dividi com amigos que não queria ir ao compromisso que havia àquela noite, que estava tão contente que só poderia ir ao cinema.

Não há lugar de melhor acolhida. O olhar unidirecional e a trégua na vida que acontece fora de mim – em mim. Minha declaração de amor, assim, não poderia ser mais torta e embaraçada.

Todos os meus melhores e piores momentos combinam com a projeção de um filme. Da total comunhão, percebo que não importa o quanto que me ocupe da vida, o quanto que me ausente, me distraia, me enleve ou me desmorone, sempre há o instante em que denuncio: preciso ir ao cinema.

Pauso e recomeço.