| os tempos da fotografia

são dois os tempos da fotografia. o da espera eu vivi com a minha primeira lomo. sem muito embaraço, insaciavelmente simples, direcionava e atirava até o fim do filme. o que dava o tom da espera era o tempo que eu deveria aguardar para ver tudo o que eu estava vendo enquadrado de uma outra maneira. a demora é quase cúmplice da revelação. o prazer está em percorrer e prolongar a primeira com o desejo de, quanto mais elástico, chegar logo ao final. (o resultado segue a tônica do processo: o que considero como primeira revelação – deixo de fora as poucas da graduação – foi tão excitante quanto decepcionante. e reconhecer o valor da agulha é também elementar.)

o segundo tempo da fotografia é o tempo da ação. aquele em que, numa perfeita sincronia, o olho busca, paralisa e o dedo aprisiona. se os instantes não são de todo decisivos (tão interessante quanto pode ser o que excede – e o que antecede), o tempo da ação é aflitivo, fortuito, imediatamente prazeroso. é uma batida. e urgentemente sereno.

aliás, para uma amante apenas que sou, a ação ainda toca no medo da perda por descuido da técnica.
resolvi usar minha pentax pela primeira vez numa viagem, um estado de espírito geralmente acelerado pelo novo. o arrojo não caia bem com a memória fraca para conceitos básicos vistos há anos.
no entanto, foram a euforia e a agilidade dos celulares ao redor, o sol empinado e o olho encaixado no visor que me fizeram pensar neste tempo da fotografia, onde quase tudo acontece para acabar no momento seguinte. aqui, quanto mais vivo era o objeto fotografado mais conflitante era o espaço entre a pressa e a calmaria.

o entusiasmo puro pelo pensamento da câmera, pela dança entre a luz e abertura, reduz, por agora, a ansiedade na materialização do capturado. o que valia era o percurso que levava ao disparo, entre a excelência e a despretensão.
a revelação do meu primeiro filme na analógica foi até que feliz, condizente sobretudo com a paciência de ficar um pouco para trás e depois compensar na carreira.

dois processos e tempos distintos.

. imagem: fotos de montevidéu (pedestrianismo com uma câmera na mão e mil ideias na cabeça) e colônia do sacramento, 2018.

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O Inimigo Principal, de Jorge Sanjinés

quantos cineastas bolivianos você conhece? e qual Bolívia você vê representada no cinema?
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nove filmes de um dos mais importantes diretores bolivianos estão em cartaz. Jorge Sanjinés já passou dos 50 anos de carreira e foi o primeiro cineasta do país a incorporar as línguas quéchua e aymara nas películas. dos nove, oito foram restaurados e serão exibidos pela primeira vez nesta que é a maior mostra dedicada a ele já feita no Brasil.
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gratuita, está no ccsp, ali na vergueiro. é mais uma excelente oportunidade para deseuropeizar nossas referências no cinema e nossa visão de América Latina. até porque ainda que estejamos familiarizados com filmes chilenos, uruguaios, cubanos ou argentinos (e com Darín também – hehe), o local de onde fala Jorge Sanjinés é totalmente outro. sua ideia de ‘cinema junto ao povo’ é a de uma estética cinematográfica voltada (e desenvolvida) junto às comunidades andinas.
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| a cena aqui é de ‘O Inimigo Principal’ (1974). feito durante o exílio, no Peru, é baseado em fatos reais e retrata o processo de aproximação de guerrilheiros com uma comunidade indígena. diante da tirania do gamonal Carrilles, de uma justiça que favorece apenas o latifundiário, os camponeses se rebelam com a ajuda da luta guerrilheira.

tá tudo ali. o filme fala de poder e exploração, da questão da terra (chave para entender a América Latina), problematiza os novos brancos que chegam e partem (os jovens guerrilheiros) e aponta para o que seria o ‘inimigo principal’, o imperialismo norte-americano (brechtiano, para além da denúncia vazia).
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acho que neste filme de Sanjinés há algumas cenas simbólicas, como a que retrata a submissão dos camponeses todos armados a dois policiais; outras belíssimas, como a do silêncio da morte depois do clamor pela morte; outra que poderia ser colocada na lista de cenas memoráveis do cinema latino-americano: a do juízo popular, que contou com a espontaneidade dos camponeses que tinham muito de verdadeiro a falar. para além do cinema, o real, o povo.
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| na sessão, houve uma interrupção para a troca da película. filme exibido em 35mm pelo projecionista Benê.

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Histórias da sexualidade

muitíssimos motivos para visitar a exposição ‘Histórias da sexualidade’ no Masp. deixo aqui apenas alguns deles – os que me vieram de imediato:

(a) se numa cronologia da história da arte ocidental, o estudo de corpos é dominantemente representado por nus femininos e artistas masculinos, é interessante observar essa composição escolhida para abrir um dos andares da exposição: a banhista de Renoir tapa delicadamente seu sexo (1870) enquanto duas obras mais recentes (uma de 1999 e outra de 2005) trazem corpos masculinizados totalmente nus. sem anacronismos, ainda que não desconsideremos a temporalidade de cada uma delas, a disposição e representação ainda marcam os lugares sociais e simbólicos de mulheres e homens.

(b) uma ótima oportunidade para pensar e formular novas leituras de obras que já fazem parte do acervo expositivo do museu, como a Moema de Victor Meirelles, o autorretrato de Gauguin (ele está na seção de performatividades de gênero, sob o mote da androginia) ou a bailarina de 14 anos de Degas (a singela escultura carrega a dura realidade das chamadas rats da Ópera de Paris, num contexto em que falar de espetáculo era também silenciar sobre abusos de corpos femininos e prostituição).

(c) a seção dedicada a totemismos não só é elucidativa por introduzir um pouco do aspecto simbólico e ritualístico dos totens, mas é, sobretudo, para ser vista. ali, apenas falos e vulvas, tão comuns, tão sacralizados por nós mesmos, não?!

(d) há um quadro de autoria desconhecida, datado do século XVIII (se não me falha a memória), sobre o juízo final. é peruano, com uma riqueza de detalhes que nos levam dias de observação, tão interessante quanto um Hieronymus Bosch. oportunidade para descolonizar um tiquinho nossas referências.

(e) este tópico para destacar uma obra em nome de tantos outros artistas brasileiros que merecem mais atenção (e que muitos deles a exposição me trouxe como primeira vez): o violento “Pela praia de Iracema”, de Descartes Gadelha, sobre o turismo sexual e a exploração de crianças nas praias de Fortaleza.

(f) a obra polêmica de Adriana Varejão está por lá. mas talvez sua capacidade de aterrorizar pessoas de bem esteja sendo comprometida pela gigante “Xannayonnx Portal”, de Cibelle Cavalli Bastos (o nome já diz tudo). de qualquer forma, um bom momento para diferenciar representação de apologia é ir do quadro de Varejão ao de Gadelha. para desarmar qualquer argumento mesmo.

(g) um Francis Bacon que não está por aqui sempre (não pode ser fotografado, não saiu nesta foto, mas abre a exposição) e (por minha enorme paixão) um pequenino nu de Egon Schiele .

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La Cruz del Sur

O chileno Patricio Guzmán precisou de apenas 80 minutos para narrar em um documentário o sincretismo religioso na América Latina, o contato das crenças andinas com a Igreja Católica, os mitos pré-colombianos, a chegada do homem branco à região sul do continente, o candomblé no Brasil e a Teologia da Libertação. Lançado em 1992, ‘La Cruz del Sur’ fala de como cultura é política e política pode ser religião. Fincar a ponte do diálogo e se abrir aos costumes de outros povos é ser civilizado, entende e explica logo no início um sacerdote maia, contrastando com as cenas de subjugação cristã.
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Conhecido como um dos maiores documentaristas latino-americanos, Patricio é sutil nas escolhas. Falando em Deus e ouvindo quem versa sobre a Igreja à serviço do Estado e de uma classe dominante, o cineasta opta por encerrar uma sequência com uma cena na Bolsa de Valores. A balbúrdia é simbólica: Deus mesmo é o dinheiro.
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‘La Cruz del Sur’, assim, é conduzido com destreza. Tem espaço até para o papa João Paulo II (que, segundo relatos, ‘fala em nosso favor, mas não luta do nosso lado’ – aliás, uma relevante demarcação). No entanto, alguns depoimentos conseguem carregar a alma de todos os registros de Patricio. Um dos sacerdotes maias (ou ‘ministrante laico’, pois o catolicismo não permite padres indígenas casados – ao contrário dos costumes locais) confessa: nós estamos perdidos sobre o que é a cultura andina e o que é a religião andina.
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A cruz, aqui, representa o caminho que o sol faz no céu. A cobra, ao contrário, não dá face ao Diabo: é sagrada, sempre em contato com o chão. Na América Latina da exploração (impossível não lembrar do marxista Mariátegui numa das falas), o pecado veio antes da língua estrangeira e os deuses nas pedras, resistentes e perenes, foram dessacralizados diante dos santos frágeis de pau.
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Patricio Guzmán, com um pé firme na etnografia e a câmera acesa, nos diz que não é possível falar de cultura, política e religião sem estabelecer devidamente os seus elos. Excelente documentário para tempos em que o debate se restringe ao falho questionamento de se a arte é ou não é.

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| E NA TOADA DA REFLEXÃO MUSEOGRÁFICA: O ESVAZIAMENTO DA CRÍTICA

Em 32 anos de atuação, o grupo Guerrilla Girls usa de fotos, humor e imagens “ultrajantes” para expor preconceitos étnicos e de gênero na política, na arte e no cinema.

Em 1989, elas fizeram um famoso cartaz sobre a presença feminina no MET Museum: o espaço contava com menos de 5% de artistas mulheres nas seções de arte, enquanto que os corpos femininos representavam mais de 85% do acervo de nus.

Ao longo da nova exposição do MASP, iniciada nesta semana, cartazetes nos mostram que em diferentes museus norte-americanos, durante três décadas, os números de mulheres artistas não bateram nos 10%.

Para, enfim, comermos a cereja: um pôster brasileiro, baseado nas obras mais conhecidas do grupo, aponta que no próprio Museu de Arte de São Paulo apenas 6% dos artistas do acervo em exposição são mulheres e 60% dos nus são femininos.

É o gênero da reflexão “que vem e que passa”: o que cabia ao espaço da crítica aguerrida vira tema de exposição. Desanuvio. O dedo é apontado para si com graça. Segue para a próxima.

Nesta toada, uma nova mostra daqui a 30 anos poderá ser necessária para atualizarmos a margem de erro para mais ou para menos.

(No texto de entrada, aliás, o museu diz que “apresenta melhores números do que os do MET”: Metropolitan 5% em 1989 e 4% em 2012 versus MASP com 6% em 2017).