PALAVRAS, DE MINHAS PRÓPRIAS VÉRTEBRAS, POR MILHARES DE ANOS

O poeta Maiakóvski escreveu sobre nuvem, guerra, amor e versos. Ler a sua obra, de 1912 a 1930, passando pelo emblemático ano de 1917, é se deparar sobretudo com uma preocupação incessante com a tessitura da poesia, ou melhor dizendo, com a arte de buscar palavras e combiná-las no papel. Maiakóvski, que em seu tempo chegou a ser classificado como “incompreensível para as massas”, dedicou ainda um poema fenomenal ao papel do poeta na sociedade trabalhadora (“Conversa sobre poesia com o fiscal de rendas”, 1926).

Quem lê até a embriaguez – comportamento registrado em sua miniautobiografia -, dificilmente tem preconceito com os distintos usos que as palavras podem assumir. Vladimir foi jornalista, fazedor de cartazes e até publicitário de propaganda sanitária. Ainda que ele falasse versos e não fatos (“De ‘V Internacional'”, 1922), a maneira – revolucionária – como ele olhava para as letras pode servir de inspiração para muitos jornalistas – trabalhadores das palavras cheios de dores e vaidades.

A leitura pela tradução da dupla Augusto e Haroldo de Campos mais Boris Schnaiderman, aliás, é outro componente que faz refletir sobre o mesmo assunto. Impossível não lembrar do relato feito por Regina Przybycien, tradutora dos dois únicos livros da polonesa Wislawa Szymborska em português, que li em 2016, sobre a árdua tarefa de conseguir manter – ou, muitas vezes, optar por – rima, métrica, essência, sentido e até os ricos jogos de – mais uma vez – palavras do original. Se o autor, como diz Maiakóvski, come quilos de sal e consome maços de cigarros para extrair a “palavra essencial” – “um duro juro” -, o tradutor, como atestam Regina e Boris, passa dias maquinando em cima de uma única palavra a fim de “traduzir o intraduzível”.

Então, como passar incólume por estas que falam do mundo para falar delas mesmas? Três lembretes de Vladimir:

1:: palavras põem em luta milhões de corações por milhares de anos. (…) a classe fala pelas nossas palavras. nós somos proletários e motores da pena. (…) daqui a séculos, do papel mudo toma um verso e o tempo ressuscita. [1926]

2:: o livro bom é claro e necessário a mim, a vocês, ao camponês e ao operário. [“Incompreensível para as massas”, 1927]

3:: desdobro minhas páginas – tropas em parada, e passo em revista o front das palavras. (…) os versos para mim não deram rublos, nem mobílias de madeiras caras. uma camisa lavada e clara, e basta – para mim é tudo. [“A Plenos Pulmões”, 1929-30]

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Publicado por

mibuarque

Escrevo para liberar as vozes que surgem dentro de mim. Jornalista. Respiro e vivo teatro. Sou a protagonista e diretora do filme que é a minha vida. Encontro-me na literatura, nas músicas, nos museus, nos cinemas... E no vento que dobra cada esquina.

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