| os tempos da fotografia

são dois os tempos da fotografia. o da espera eu vivi com a minha primeira lomo. sem muito embaraço, insaciavelmente simples, direcionava e atirava até o fim do filme. o que dava o tom da espera era o tempo que eu deveria aguardar para ver tudo o que eu estava vendo enquadrado de uma outra maneira. a demora é quase cúmplice da revelação. o prazer está em percorrer e prolongar a primeira com o desejo de, quanto mais elástico, chegar logo ao final. (o resultado segue a tônica do processo: o que considero como primeira revelação – deixo de fora as poucas da graduação – foi tão excitante quanto decepcionante. e reconhecer o valor da agulha é também elementar.)

o segundo tempo da fotografia é o tempo da ação. aquele em que, numa perfeita sincronia, o olho busca, paralisa e o dedo aprisiona. se os instantes não são de todo decisivos (tão interessante quanto pode ser o que excede – e o que antecede), o tempo da ação é aflitivo, fortuito, imediatamente prazeroso. é uma batida. e urgentemente sereno.

aliás, para uma amante apenas que sou, a ação ainda toca no medo da perda por descuido da técnica.
resolvi usar minha pentax pela primeira vez numa viagem, um estado de espírito geralmente acelerado pelo novo. o arrojo não caia bem com a memória fraca para conceitos básicos vistos há anos.
no entanto, foram a euforia e a agilidade dos celulares ao redor, o sol empinado e o olho encaixado no visor que me fizeram pensar neste tempo da fotografia, onde quase tudo acontece para acabar no momento seguinte. aqui, quanto mais vivo era o objeto fotografado mais conflitante era o espaço entre a pressa e a calmaria.

o entusiasmo puro pelo pensamento da câmera, pela dança entre a luz e abertura, reduz, por agora, a ansiedade na materialização do capturado. o que valia era o percurso que levava ao disparo, entre a excelência e a despretensão.
a revelação do meu primeiro filme na analógica foi até que feliz, condizente sobretudo com a paciência de ficar um pouco para trás e depois compensar na carreira.

dois processos e tempos distintos.

. imagem: fotos de montevidéu (pedestrianismo com uma câmera na mão e mil ideias na cabeça) e colônia do sacramento, 2018.

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Desaguando

Desde novembro do ano passado, está acontecendo a exposição Água na Oca, no Parque do Ibirapuera. São vários andares (3 + 1 de cinema) tratando do tema das mais diversas formas possíveis. Sua importância para os seres humanos, uso consciente, aquários reproduzindo lagos e rios do mundo todo, as expedições marítimas do século XVI, os bichos estranhos (mesmo!) que vivem nas profundezas (mesmo!) do oceano, canoas e remos de tribos antigas, reciclagem, quanto de água tem em um dente (menos de 1%) ou em elefante etc.
A exposição é muito bacana. Fui no domingo 27, e o tempo estava bem quente. Quando entrei, senti um alívio… Ah! Tem um andar com instalações de vários artistas, representando a água de uma maneira singular e audiovisual. As três obras de que mais gostei são do mesmo artista: William Pye.

 

Tudo isso vai até maio. E o último domingo de cada mês é gratuito.
Aqui, o site.

 

Registros oculares:

Oca de fora
Pouco ocular do meu pai
Depois de 20 minutos na fila, estamos chegando
Andar das instalações
Reproduzindo as ondas do mar
Pai na bolha de água
– Não saiu a chuva no fundo, pipo!
Hehe…
Vale a dica,
Té+!
MB