Histórias da sexualidade

muitíssimos motivos para visitar a exposição ‘Histórias da sexualidade’ no Masp. deixo aqui apenas alguns deles – os que me vieram de imediato:

(a) se numa cronologia da história da arte ocidental, o estudo de corpos é dominantemente representado por nus femininos e artistas masculinos, é interessante observar essa composição escolhida para abrir um dos andares da exposição: a banhista de Renoir tapa delicadamente seu sexo (1870) enquanto duas obras mais recentes (uma de 1999 e outra de 2005) trazem corpos masculinizados totalmente nus. sem anacronismos, ainda que não desconsideremos a temporalidade de cada uma delas, a disposição e representação ainda marcam os lugares sociais e simbólicos de mulheres e homens.

(b) uma ótima oportunidade para pensar e formular novas leituras de obras que já fazem parte do acervo expositivo do museu, como a Moema de Victor Meirelles, o autorretrato de Gauguin (ele está na seção de performatividades de gênero, sob o mote da androginia) ou a bailarina de 14 anos de Degas (a singela escultura carrega a dura realidade das chamadas rats da Ópera de Paris, num contexto em que falar de espetáculo era também silenciar sobre abusos de corpos femininos e prostituição).

(c) a seção dedicada a totemismos não só é elucidativa por introduzir um pouco do aspecto simbólico e ritualístico dos totens, mas é, sobretudo, para ser vista. ali, apenas falos e vulvas, tão comuns, tão sacralizados por nós mesmos, não?!

(d) há um quadro de autoria desconhecida, datado do século XVIII (se não me falha a memória), sobre o juízo final. é peruano, com uma riqueza de detalhes que nos levam dias de observação, tão interessante quanto um Hieronymus Bosch. oportunidade para descolonizar um tiquinho nossas referências.

(e) este tópico para destacar uma obra em nome de tantos outros artistas brasileiros que merecem mais atenção (e que muitos deles a exposição me trouxe como primeira vez): o violento “Pela praia de Iracema”, de Descartes Gadelha, sobre o turismo sexual e a exploração de crianças nas praias de Fortaleza.

(f) a obra polêmica de Adriana Varejão está por lá. mas talvez sua capacidade de aterrorizar pessoas de bem esteja sendo comprometida pela gigante “Xannayonnx Portal”, de Cibelle Cavalli Bastos (o nome já diz tudo). de qualquer forma, um bom momento para diferenciar representação de apologia é ir do quadro de Varejão ao de Gadelha. para desarmar qualquer argumento mesmo.

(g) um Francis Bacon que não está por aqui sempre (não pode ser fotografado, não saiu nesta foto, mas abre a exposição) e (por minha enorme paixão) um pequenino nu de Egon Schiele .

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La Cruz del Sur

O chileno Patricio Guzmán precisou de apenas 80 minutos para narrar em um documentário o sincretismo religioso na América Latina, o contato das crenças andinas com a Igreja Católica, os mitos pré-colombianos, a chegada do homem branco à região sul do continente, o candomblé no Brasil e a Teologia da Libertação. Lançado em 1992, ‘La Cruz del Sur’ fala de como cultura é política e política pode ser religião. Fincar a ponte do diálogo e se abrir aos costumes de outros povos é ser civilizado, entende e explica logo no início um sacerdote maia, contrastando com as cenas de subjugação cristã.
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Conhecido como um dos maiores documentaristas latino-americanos, Patricio é sutil nas escolhas. Falando em Deus e ouvindo quem versa sobre a Igreja à serviço do Estado e de uma classe dominante, o cineasta opta por encerrar uma sequência com uma cena na Bolsa de Valores. A balbúrdia é simbólica: Deus mesmo é o dinheiro.
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‘La Cruz del Sur’, assim, é conduzido com destreza. Tem espaço até para o papa João Paulo II (que, segundo relatos, ‘fala em nosso favor, mas não luta do nosso lado’ – aliás, uma relevante demarcação). No entanto, alguns depoimentos conseguem carregar a alma de todos os registros de Patricio. Um dos sacerdotes maias (ou ‘ministrante laico’, pois o catolicismo não permite padres indígenas casados – ao contrário dos costumes locais) confessa: nós estamos perdidos sobre o que é a cultura andina e o que é a religião andina.
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A cruz, aqui, representa o caminho que o sol faz no céu. A cobra, ao contrário, não dá face ao Diabo: é sagrada, sempre em contato com o chão. Na América Latina da exploração (impossível não lembrar do marxista Mariátegui numa das falas), o pecado veio antes da língua estrangeira e os deuses nas pedras, resistentes e perenes, foram dessacralizados diante dos santos frágeis de pau.
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Patricio Guzmán, com um pé firme na etnografia e a câmera acesa, nos diz que não é possível falar de cultura, política e religião sem estabelecer devidamente os seus elos. Excelente documentário para tempos em que o debate se restringe ao falho questionamento de se a arte é ou não é.

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| E NA TOADA DA REFLEXÃO MUSEOGRÁFICA: O ESVAZIAMENTO DA CRÍTICA

Em 32 anos de atuação, o grupo Guerrilla Girls usa de fotos, humor e imagens “ultrajantes” para expor preconceitos étnicos e de gênero na política, na arte e no cinema.

Em 1989, elas fizeram um famoso cartaz sobre a presença feminina no MET Museum: o espaço contava com menos de 5% de artistas mulheres nas seções de arte, enquanto que os corpos femininos representavam mais de 85% do acervo de nus.

Ao longo da nova exposição do MASP, iniciada nesta semana, cartazetes nos mostram que em diferentes museus norte-americanos, durante três décadas, os números de mulheres artistas não bateram nos 10%.

Para, enfim, comermos a cereja: um pôster brasileiro, baseado nas obras mais conhecidas do grupo, aponta que no próprio Museu de Arte de São Paulo apenas 6% dos artistas do acervo em exposição são mulheres e 60% dos nus são femininos.

É o gênero da reflexão “que vem e que passa”: o que cabia ao espaço da crítica aguerrida vira tema de exposição. Desanuvio. O dedo é apontado para si com graça. Segue para a próxima.

Nesta toada, uma nova mostra daqui a 30 anos poderá ser necessária para atualizarmos a margem de erro para mais ou para menos.

(No texto de entrada, aliás, o museu diz que “apresenta melhores números do que os do MET”: Metropolitan 5% em 1989 e 4% em 2012 versus MASP com 6% em 2017).

S. Bernardo

Talvez eu nunca tivesse visto “S. Bernardo” porque a vida me aguardava a indicação de Ricardo Ramos Filho, neto de Graciliano Ramos, a quem tive o prazer de dar meus ouvidos num encontro na última semana. Ele citou o filme, bem como os feitos pelo Nelson Pereira dos Santos.

O Paulo Honório de Othon Bastos não é o meu (e talvez não fosse o de Graça, pois ele não se dá a descrevê-lo fisicamente na narrativa). Madalena também não é a que formulei em minha mente ao ler a obra.

Assim como há “S. Bernardo” de Graciliano, há “S. Bernardo’ de Leon Hirszman a partir de Graciliano. E ele é magistral. Fiel a diversas passagens integrais do livro, algumas cenas, no entanto, superam as que eu havia montado com as descrições do próprio autor – como a de Madalena deixando a igreja, para citar apenas uma.

E justamente por isso é incrível superar a forçosa prosa da adaptação de obras literárias para o cinema – claro que com Hirszman não me arrisco em nada na afirmação. Mas esse diálogo é capaz de nos dar peças genuínas e preciosas.


Com o filme pronto, Caetano Veloso assina a trilha. Enquanto vê as cenas, entoa “esboços de melodias e pedaços de cantos soltos” – como ele mesmo a define.

 

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O que significa sair de casa para ver um filme sozinha?

(Texto publicado originalmente no Coletivo We Love.)

A excitação em buscar pelas fileiras o lugar marcado só não é maior que o alívio ao sentar na poltrona. Uma espécie de atenuação de tudo: dos ruídos da cidade, do fluxo de sensações que pensamentos irrefreáveis me causam, do mundo que me é alheio e indiferente. Como uma prazerosa suspensão temporal, duas horas equivalem a quilômetros de distância de qualquer esquina da minha vida.

Acredito que o cinema venha assumindo esse papel desde a adolescência – ou de quando estabeleci um hábito que ainda me é extremamente caro e valoroso: sair de casa para ver um filme sozinha.

Pode parecer um tanto quanto sorumbática a experiência, mas, para mim, é como que um ritual. É na sala de cinema que me permito transparecer, esconder, dissimular e compartilhar. Quando me sinto angustiada, ansiosa, melancólica ou se carrego uma felicidade sem fim, se me apaixono, se me inteiro: é no escuro, assistindo à vida dos outros, me jogando em outras histórias e temporalidades, que me realizo. E me safo.

Aliviar-se, penso aqui, deveria ser mania. Descobrir o que tem a capacidade de lhe preencher e esvaziar – processo duplo e conjunto – é saída de emergência e abraço. E pode ser vício a sobreposição de alívios. No ano passado, decidi que precisava fazer um outro furo na orelha (essa dos furos e orelhas já notei que devo ter certa prudência). Com o entusiasmo concentrado numa vermelhidão auricular, dividi com amigos que não queria ir ao compromisso que havia àquela noite, que estava tão contente que só poderia ir ao cinema.

Não há lugar de melhor acolhida. O olhar unidirecional e a trégua na vida que acontece fora de mim – em mim. Minha declaração de amor, assim, não poderia ser mais torta e embaraçada.

Todos os meus melhores e piores momentos combinam com a projeção de um filme. Da total comunhão, percebo que não importa o quanto que me ocupe da vida, o quanto que me ausente, me distraia, me enleve ou me desmorone, sempre há o instante em que denuncio: preciso ir ao cinema.

Pauso e recomeço.