S. Bernardo

Talvez eu nunca tivesse visto “S. Bernardo” porque a vida me aguardava a indicação de Ricardo Ramos Filho, neto de Graciliano Ramos, a quem tive o prazer de dar meus ouvidos num encontro na última semana. Ele citou o filme, bem como os feitos pelo Nelson Pereira dos Santos.

O Paulo Honório de Othon Bastos não é o meu (e talvez não fosse o de Graça, pois ele não se dá a descrevê-lo fisicamente na narrativa). Madalena também não é a que formulei em minha mente ao ler a obra.

Assim como há “S. Bernardo” de Graciliano, há “S. Bernardo’ de Leon Hirszman a partir de Graciliano. E ele é magistral. Fiel a diversas passagens integrais do livro, algumas cenas, no entanto, superam as que eu havia montado com as descrições do próprio autor – como a de Madalena deixando a igreja, para citar apenas uma.

E justamente por isso é incrível superar a forçosa prosa da adaptação de obras literárias para o cinema – claro que com Hirszman não me arrisco em nada na afirmação. Mas esse diálogo é capaz de nos dar peças genuínas e preciosas.


Com o filme pronto, Caetano Veloso assina a trilha. Enquanto vê as cenas, entoa “esboços de melodias e pedaços de cantos soltos” – como ele mesmo a define.

 

21248251_10210673862108086_8786560546538538878_o.jpg

Anúncios

O que significa sair de casa para ver um filme sozinha?

(Texto publicado originalmente no Coletivo We Love.)

A excitação em buscar pelas fileiras o lugar marcado só não é maior que o alívio ao sentar na poltrona. Uma espécie de atenuação de tudo: dos ruídos da cidade, do fluxo de sensações que pensamentos irrefreáveis me causam, do mundo que me é alheio e indiferente. Como uma prazerosa suspensão temporal, duas horas equivalem a quilômetros de distância de qualquer esquina da minha vida.

Acredito que o cinema venha assumindo esse papel desde a adolescência – ou de quando estabeleci um hábito que ainda me é extremamente caro e valoroso: sair de casa para ver um filme sozinha.

Pode parecer um tanto quanto sorumbática a experiência, mas, para mim, é como que um ritual. É na sala de cinema que me permito transparecer, esconder, dissimular e compartilhar. Quando me sinto angustiada, ansiosa, melancólica ou se carrego uma felicidade sem fim, se me apaixono, se me inteiro: é no escuro, assistindo à vida dos outros, me jogando em outras histórias e temporalidades, que me realizo. E me safo.

Aliviar-se, penso aqui, deveria ser mania. Descobrir o que tem a capacidade de lhe preencher e esvaziar – processo duplo e conjunto – é saída de emergência e abraço. E pode ser vício a sobreposição de alívios. No ano passado, decidi que precisava fazer um outro furo na orelha (essa dos furos e orelhas já notei que devo ter certa prudência). Com o entusiasmo concentrado numa vermelhidão auricular, dividi com amigos que não queria ir ao compromisso que havia àquela noite, que estava tão contente que só poderia ir ao cinema.

Não há lugar de melhor acolhida. O olhar unidirecional e a trégua na vida que acontece fora de mim – em mim. Minha declaração de amor, assim, não poderia ser mais torta e embaraçada.

Todos os meus melhores e piores momentos combinam com a projeção de um filme. Da total comunhão, percebo que não importa o quanto que me ocupe da vida, o quanto que me ausente, me distraia, me enleve ou me desmorone, sempre há o instante em que denuncio: preciso ir ao cinema.

Pauso e recomeço.

Tua Cantiga

E, em meio à vozearia, o que perdemos é a inspiração lírica. Nem arte é feita apenas para acalentar – preferível que não! – nem autor deveria ser tão facilmente confundido com seu eu-poético (o tal do ‘eu’ que é lírico). Para isso, poderíamos relembrar com tenacidade as tantas personas de Fernando Pessoa… ou então as tantas vozes musicais de Chico Buarque.

E, nesta grande bulha, mata-se criador e criaturas. Bárbara, Lily, Teresinha, Beatriz, Ana, Joana, Geni, Carolina, Rita, Rosa, Cecília, Nina. Todas as Mulheres de Atenas.

Sou suspeita para falar do chico-compositor até o último fio de cabelo. Mas isso não me faz abraçar quem acha que ele é incriticável, como também nunca me deu identificação plena com todas as suas vozes femininas. Ou ainda livre passe em minha estante para seus livros.

Mas, assim, em torno da última melodia: sendo força de expressão ou não, que um dos méritos de ‘Tua Cantiga’, então, seja o de direcionar o olhar torto para esse homem – tão comum – que diz ‘largar filhos’. E que é um sujeito lírico, cantado pelo autor.

Tendo isso em mente, a grande crise se Chico traiu ou não as mulheres, se ele é deus ou demônio, se ele é agora de esquerda ou de direita, se ele é bom pai ou bom companheiro, tudo isso se dissipa.

E há um turvo lugar em que a tão essencial problematização vira apenas simplificação. E neste pequeno vão fica também a nossa capacidade poética.

Aproveito e deixo uma fala de Joana para Jasão, em ‘Gota d’Água’ (1975), de Chico e Paulo Pontes.

| Pois bem, você vai escutar as contas que eu vou lhe fazer: te conheci moleque, frouxo, perna bamba, barba rala, calça larga, bolso sem fundo. Não sabia nada de mulher nem de samba e tinha um puto dum medo de olhar pro mundo. As marcas do homem, uma a uma, Jasão, tu tirou todas de mim. O primeiro prato, o primeiro aplauso, a primeira inspiração, a primeira gravata, o primeiro sapato de duas cores, lembra? O primeiro cigarro, a primeira bebedeira, o primeiro filho, o primeiro violão, o primeiro sarro, o primeiro refrão e o primeiro estribilho. Te dei cada sinal do teu temperamento. Te dei matéria-prima para o teu tutano. E mesmo essa ambição que, neste momento, se volta contra mim, eu te dei, por engano. Fui eu, Jasão, você não se encontrou na rua. Você andava tonto quando eu te encontrei. Fabriquei energia que não era tua pra iluminar uma estrada que eu te apontei. E foi assim, enfim, que eu vi nascer do nada uma alma ansiosa, faminta, buliçosa, uma alma de homem. |

Cinco lições de José e Pilar

(Texto publicado originalmente no Coletivo We Love.)

José de Sousa, em seu bilhete de identidade informal, conta que talvez tenha sido um dos primeiros casos em que o filho dá nome ao pai: Saramago não é de família, era apenas alcunha e acabou adotado pelo pai depois de ser colocado em José por um ousado funcionário da Conservatória do Registro Civil da Golegã, em Portugal. E é como um ‘bilhete de identidade informal’, não só seu, mas também de Pilar del Río, sua companheira, que o livro José e Pilar pode ser lido.

Reunindo as entrevistas que deram origem ao documentário de Miguel Gonçalves Mendes (2010), a grande novidade do livro é trazer algumas conversas inéditas, que não foram parar no produto final. Prefaciado por Valter Hugo Mãe, a obra não é nova – foi publicada em 2012, dois anos após o filme. Estava em minha estante há um bom tempo, esperando para ser lido justamente pela razão de que teria sido lido de imediato.

Explico: cartas e conversas são, para mim, uma enorme tentação. Pode ser que um pouco de minha curiosidade jornalística se converta em bisbilhotices, mas a verdade é que eu acho que só é possível conhecer de fato um autor quando você se vale de outros meios que não as suas obras. Facetas, pois – diria José Saramago.

Dada a colocar atenção em sincronias – coisa que fariam José e Pilar rirem de mim –, o dia em que termino o livro marca justamente um mês para os sete anos de morte de Saramago (18 de junho de 2010) e, curiosamente, é o mesmo em que vi o documentário anos atrás (a ferramenta de lembranças do Facebook tem a sua utilidade).

A divisão adotada no livro é outro adicional. Com ‘capítulos’ intercalados dedicados a cada um, é possível visualizar claramente em quais pontos os dois se aproximam e se distanciam. Apesar de Pilar colocar-se como a jornalista e tradutora que ajudou a ‘organizar’ a vida de Saramago – e sua carreira tardia –, é interessante como o livro nos permite ver um pouco mais de Pilar.

“Participamos da mesma forma de estar no mundo” é o que ela diz a respeito das semelhanças e diferenças dos dois. Acredito que esta frase sintetize, concordando com Pilar, a relação dos dois. Sem pretensões, as conversas com o diretor Miguel Gonçalves Mendes evidenciam uma confluência de opiniões acerca de variados assuntos: José, sereno, e Pilar, veemente, veem da mesma forma a nocividade das relações familiares, o amor, o mundo, a religião, os papéis cívicos e políticos dos jornalistas e dos escritores, a cultura e a morte. Ou seja, eles de fato partilham, participam e estão* no mundo juntos. Este seria um dos maiores ideais no amor – até para os dois, tão críticos e avessos à eternidade ou ao destino. (É de se entender, claro: encontraram-se quando muito já haviam caminhado pela vida. Ainda assim, para eles, não haveria amor ou vida maior se separados.)

Este mesmo estar no mundo é a primeira lição que tiro de José e de Pilar. Compartilho abaixo outros nove aprendizados desta conversa que travamos os quatro:

2. Momento-chave, por José: Se há um momento na minha vida que é um momento-chave é esse, o momento da decisão: é agora ou nunca que eu vou saber finalmente se sou escritor ou se não sou escritor. E tinha sessenta anos, meu caro.
José Saramago recebeu o Prêmio Nobel de Literatura aos 76 anos. Longe do círculo de intelectuais portugueses, até aquele momento sempre fora tratado com desconfiança e ceticismo – assunto longamente abordado pelos dois em muitas entrevistas. Quando resolveu escrever, Saramago encontrava-se desempregado. Foi para o Alentejo, para uma unidade coletiva de produção e saiu com um romance. É um dos maiores escritores portugueses.

3. Família, por Pilar: A família é um grupo social. (…) É o grupo social mais perverso que pode haver para o indivíduo. É constituído e passa a existir e nós o mantemos. E eu citava o exemplo de [Bernardo] Bertolucci, que dizia que a primeira mentira que os seres humanos dizem é justamente por culpa da família, o primeiro fingimento, a primeira hipocrisia… Aprendemos a ter uma vida dupla e a sermos diferentes do que queremos ser (…).

4. Respeito e amor, por José: Somos muito respeitadores de cada um de nós em relação ao outro. Isso não quer dizer que não se aprenda com o outro, que não se transmita ao outro algo daquilo que é nosso, e não quer dizer que isso que se transmite não seja incorporado no outro. Pois se eu leio hoje um livro e se esse livro influi em mim, como é que não há de influir a pessoa com quem eu vivo um ano, dois, três, quatro, cinco, dez anos? Mas nem eu me converto no livro nem me converto na outra pessoa. (…) Interpenetramos a toda a hora.

5. Raízes e o mundo, por Pilar: Às vezes se criam raízes, mas onde eu estiver levarei sempre umas tesouras para cortar as raízes. As raízes… cada um vive no lugar onde está neste momento, e as raízes deste dia são cada dia, não estar apegado aos lugares. O mundo é muito grande para apegar-se só e exclusivamente a um lugar.

*Ignorei a morte de Saramago ao escrever este texto, pois ela foi completamente esquecida no decorrer da leitura. Bem, é como se ele seguisse vivo, não? (Mais um comentário para o qual ele balançaria a cabecinha.)

Sobre 13 reasons why

terminei ’13 reasons why’ – com a sensação de estar um pouco atrasada em relação aos trending topics da minha bolha-netflix-facebook. como não alimentei expectativas, não me importa muito saber se ela foi melhor ou pior do que eu poderia ter pensado.

a verdade é que um dos méritos da série me parece ser o de trabalhar o tema da vida das garotas em um colégio, especificamente no ensino médio. a série em diversas cenas mostra como uma agressão, um bullying, sofrido por uma menina considerada dentro dos padrões – como é Hannah, a protagonista – pode ser infinitamente pior que o sofrimento e a tal da ‘brincadeira’ – que não é! – feita com um garoto tido como intelectual e alheio a determinado convívio social. sim, o retrato duro da adolescência na escola é pertinente e necessário, mas o recorte de gênero foi ainda melhor trabalhado.
[e, aliás, exclamação: como o cara mais doce e inteligente do mundo – apaixonado por você – pode ser incapaz de apreender certas particularidades – como aquela em que aparecer numa lista objetificada de corpos mais lindos do colégio não é sinônimo de elogio.]

13-Reasons-Why-Netflix-TV-Show.png

contudo, ao mesmo tempo, vejo na série uma leviandade no que se refere a um de seus principais temas – se não for o maior, o mote e o com maiores implicações: o do suicídio.
não li e não sei como ele é desenvolvido no texto que serviu de adaptação para os diretores, mas ’13 reasons why’ é uma série de 13 episódios em que a principal questão reside nas possíveis culpas que colegas poderiam ter na decisão tomada pela garota. não jogando apenas nas mãos dos personagens, afinal, é basicamente isto que a menina faz: uma lista de culpados pela sua morte.

acho extremamente delicado abordar o suicídio por esta via tão rasa, visto que trata-se de um assunto tão complexo – e pouco assimilável em uma narrativa que às vezes beira o criminal. de qualquer maneira, e pensando aqui no aspecto formal, saber das razões e alcançar a personagem principal por meio de tantas camadas, de tantas cenas desnecessárias, de um prolongamento da trama calculado e, sim, por meio de uma outra pessoa, um homem, ouvindo e fazendo suas interpretações, cortou demasiadamente o contato com o sofrimento da garota. este foi o meu lamento. vemos muito pouco de Hannah, situações de tensão, oscilações, momentos de solidão, todos entrecortados pelo que parece ser o drama principal: como a galera pode se livrar da culpa, quem matou a menina, como lidar com responsabilidades. e é neste aspecto que a história parece ser imprudente.

de qualquer forma, espero mesmo que ela sirva de ponte entre pais e escolas, entre professores, auxiliares e estudantes. e que, principalmente, ajude de maneira positiva pessoas que estejam tendo uma vida e se sentindo como Hannah.