Eternidade

está tudo ali e redondo: roteiro, atuação, trilha sonora, montagem, câmera, enquadramento e uma das melhores fotografias do cinema nacional. quando o conjunto é bem orquestrado (porque cinema é conjunto), o filme possibilita uma boa narrativa em cinquenta minutos ou em cinco horas.

o curioso – pensando no título do longa – é que levei dois meses para passar dos primeiros quatro minutos de ‘A História da Eternidade’, do cineasta pernambucano Camilo Cavalcante. pura poesia visual.

filme que gira em torno da água e da falta dela, do desejo e da morte. todos ali estão querendo. e o mundo dos sonhos – tão mais imenso em um vilarejo de 40 pessoas – é constantemente interrompido pela lida.

de referências às claras – como a apoteótica cena de Irandhir Santos performando ‘Fala’ (Secos & Molhados) ou Torquato Neto e Carlos Drummond de Andrade – ao que permanece silencioso, aparece de mansinho – como a representação da música de Santanna, O Cantador em frames.

tão cru e poético, consegue não só levar uma das três personagens principais a sentir o mar no sertão, mas fazer lagrimar os olhos de quem assiste. o mar está dentro da gente.


(e vou me permitir fazer um comentário disparatado enquanto verdadeiro: é que por esses dias estava vendo ainda um dos indicados ao Oscar deste ano. e, puts, não chega nem nas duas primeiras cenas do filme de Cavalcante – só não comento qual porque vai gerar dorzinha e burburinho – e daquele salvo poucas coisas e uma atriz.)

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:: alguns pequenos comentários desordenados sobre ‘la la land’:

(acho que não tem o tal do spoiler, mas, se encontrar algum, corre a barra de rolagem bem rapidão ou fecha o olho.)

1:: é um musical sem voz. nem tanto porque o casal principal (emma stone e ryan gosling) cante razoavelmente bem, mas porque não há muita canção mesmo. em alguns momentos, cenas musicais parecem que poderiam durar mais. outros vários são de repetições de uma mesma música. ou seja, para mim, neste quesito, bem, bem fraco. (e, bom, eles não têm voz.)

2:: o roteiro falho. esteticamente bonito (muito!), o filme peca em momentos morosos, ausência do que contar e descuido com o conteúdo, que gera situações sem sentido. ex.: uma menina que vive – respira – para ser atriz, mas consegue esquecer de suas audições marcadas.

3:: o filme não é sobre o amor: é sobre escolhas. e escolhas que exigem uma espécie de abandono total de qualquer ideia de algo que possa ser construído em comum. ainda que em musicais eu vá super aberta para finais clichês, acho bem mais interessante quando se foge do padrão ‘felizes para sempre’. no entanto, o que fica das escolhas feitas em ‘la la land’, principalmente as de emma stone, é que elas poderiam englobar muito mais do que excluir. se na vida real é bem complicado julgar e condenar razões que levam a desistências, o filme deveria dar elementos, que estariam na construção do enredo e do personagem, para que as escolhas façam algum sentido. será mesmo que não se pode ter tudo? ‘agora eu vou por aqui, não tem jeito nenhum de você ir comigo, te amo, te amei, mas adeus’.

4:: por ser uma autocelebração de hollywood, além de esteticamente belo, o filme é cheio de referências. dá vontade de segurar um caderninho e seguir anotando.

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5:: cena de abertura: um aparente plano-sequência, com uma coreografia muito elaborada, mas que joga você no filme com um ar de comercial de refrigerante. aqui, espero que a sensação de som num baixo volume tenha sido apenas da sala em que eu estava. a sequência final (trágica e lindíssima) e uma cena de verão na piscina já valem o filme.

6:: o personagem de ryan gosling é o tipo branco que quer salvar o jazz. mas o recado dado em segundos pelo john legend resume bastante coisa sobre a vida – e sobre o jazz.

7:: acho a emma stone uma atriz muito talentosa e carismática. ‘la la land’ mostra bem isso. no entanto, no que diz respeito mesmo à música e dança, fiquei na decepção. outros musicais me vieram à mente – e pensei repetidas vezes em amanda seyfried. de qualquer forma, é roteiro. e eu fico com a ironia de no início do filme existir uma menção ao controverso oscar de melhor atriz levado pelo filme ‘shakespeare apaixonado’, que eu amo e tal, mas.

8:: fui com a cabeça abertíssima, pois a) gosto da experiência de ver musicais b) acho mesmo que pode ser um universo paralelo de muito amor e magia (hehe, sim, estou excluindo, por exemplo, ‘os miseráveis’) e c) não acho estranho todo mundo ir ao caixa eletrônico sacar dinheiro cantando, desfilar no metrô dançando ou fazer o café da manhã saltando porque são coisas que eu faria (e faço? hehe). ou seja, como isto aqui passa longe de ser qualquer crítica de cinema, deixo meu recadinho de que fui esperando mais e não saí dançando.

Três curtas para ver antes de dormir ou ao acordar

Eis a dinâmica de minha lista de filmes: risco um visto e adiciono três novos. Trata-se de uma conta que não costuma fechar – e nem ter fim. Metódica que sou, funciono assim há algum tempo. Antes de dormir, aliás, acerto a programação.

Ontem, resolvi encontrar três títulos para o fim de semana. Descobri em uma busca rápida que os três juntos não resultavam nem em 30 minutos. “Bambeia”, “Naiá e a Lua” e “Caminhando com Tim Tim” contam histórias de crianças e suas relações com seus mundos: meninos que fazem piões, uma jovem índia apaixonada pela lua e um bebê e seus amigos pela calçada.

São curtas sobre encontros e experiências. E, principalmente, sobre olhar ao redor. Tratando-se de crianças, as conversas, as histórias e o fazer podem ser associados a simples processos da arte do brincar. Entretanto, os três enredos apontam para a leveza que pode existir na transposição de muros.

 

Bambeia (2004), 5 min

Dirigido por Renata Meirelles e David Reeks, o documentário conta a história de três meninos de uma comunidade ribeirinha da Amazônia que fazem piões. Nesse processo, vem à tona a relação íntima que eles têm com os conhecimentos sobre a floresta e as incríveis habilidades de lançar seus piões.

 

Naiá e a Lua (2010), 13 min

O curta é dirigido por Leandro Tadashi e conta a história da jovem índia Naiá que se apaixona pela lua ao ouvir da anciã de sua aldeia a lenda do surgimento das estrelas no céu. O desejo de Naiá lembra o poema simbolista Ismália, do mineiro Alphonsus de Guimaraens. As imagens do curta são de uma beleza singular.

 

Caminhando com Tim Tim (2014), 5 min

O trajeto é curto aos olhos da mãe. Já para Valentim, de um ano de quatro meses, o percurso é recheado de detalhes e paradas. Com imagens e texto de uma simplicidade encantadora, o caminho de Tim Tim registra o passar do tempo durante os afazeres do cotidiano. Ainda que criemos gestos quase que automáticos, na nossa repetição diária, o menino Valentim mostra que andar pela calçada pode ser um grande ato de transgressão, com perigos, surpresas e, sobretudo, encontros.

Gary e a sinceridade

Em entrevista à Lola desse mês, o ator Gary Oldman fala sobre seus vilões, indicação ao Oscar e sobre a profissão em si. Eis pergunta, resposta e sinceridade:
4. Nenhuma queixa?
Alguns atores reclamam, mas reclamar do quê? Você tem uma boa vida, veste certas roupas, encena um faz de conta, e ocasionalmente você é muito bem pago para tal. Conhecemos gente interessante, viajamos… É maravilhoso, não é?
Hehehe. Nem sempre é assim, mas a imagem de fato é muito satisfatória. 

Eu sofro de entusiasmo crônico

Ontem, no Estadão, sobre o Meirelles:
Fernando Meirelles sofre de entusiasmo crônico. Como ele já admitiu, volta e meia é arrebatado por uma alegria que o faz ter vontade de avançar sem medir obstáculos. “Quando a onda passar, já estou comprometido e aí, às vezes, vem o arrependimento. Mas sigo em frente. Com a idade, aprendi a controlar isso e sei que, mesmo quando vem a baixa, uma hora vou pegar a onda novamente. Se num momento me entusiasmei, é porque algo ali falou com alguma parte dentro de mim. Então vale a pena ser investigada”, disse o diretor.
Eu também sofro de entusiasmo crônico. 

Brave

Esse filme é lindo demais. Dentro dos padrões da Pixar, com relação à animação e tal. Mas o que me surpreendeu foi a história mesmo, que aí sim foge do convencional. Tem gente dizendo (spoiler!) que parece o Irmão Urso, afirmação da qual eu discordo totalmente. Vai muito além da combinação urso & magia ou sei lá o quê que essas pessoas tenham achado em comum com Valente. O filme me ganhou por fugir de uma infinidade de lugares-comuns quando se fala de produções que visam muito mais o lado comercial (ou seja, quase todas! Ainda mais em se tratando de animação-Disney-Pixar-DreamWorks-etc.).  Os personagens são hilários, com um humor sutil, um filme onde nem a bruxa é de fato má (apenas atrapalhada), o rei não é um bonitão, o conflito não reside apenas na relutância da adolescente Merida (a Valente) em não querer se casar e, principalmente, não aparece nenhum príncipe ou moço perfeito no final para a menina. (Apesar de eu acreditar que, se houver uma continuação, isso vai acabar entrando na história para o bem da bilheteria.)

Enfim, até o personagem que se enquadraria no rótulo de vilão não é de todo malvado (e, no fim, a compreensão disso não se dá através de um longo discurso, mas sim com um olhar de agradecimento).
Por esses motivos, e tantos outros, Valente é um filme que vale a pena.
Ah! E o cabelo dessa menina por si só já vale a ida ao cinema… ❤

O curta La Luna (Pixar), exibido antes do filme, é muito singelo e divertido também.