sensação 73 de 365

de quando a água entra pela boca e sai pelos olhos.

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sensação 72 de 365

chorar por uma perda maior do que me cabe. morre antonio candido, aos 98 anos. esta é uma sensação que parece tola, mas é sentida como um enorme (        ).

das mentes mais lúcidas, revolucionárias e afáveis. extremamente inteligente e fundamental para se pensar literatura e sociedade.

estava lendo hoje de pilar del río, sobre a biblioteca de saramago, agora cedo: “e no dia em que não mais estivermos aqui, que os livros continuem juntos o tempo que possam continuar juntos”.

ainda bem que continuamos a ter antonio candido. e falta sempre fará. dói estranhamente. mas passa o que tem de passar.

Thalita

(ou sensação 71 de 365)

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seu e-mail me deixou muito feliz. na hora em que ele chegou, eu senti que havia aparecido pra festa a pessoa que faltava pra eu cortar o bolo do meu aniversário – ainda que não estivesse acontecendo nada exatamente no momento.

no instante em que sua mensagem chegou, eu senti cócegas nas pernas, uma onda gelada me subiu pelos braços e eu senti medo e amor. mas você havia chegado. no momento em que vi a notificação de sua mensagem, fui teletransportada para o lugar em que você me notificava o tanto de dias que faltavam para eu ficar mais velha.

e, no momento em que eu vi o seu nome na mensagem, senti que nunca o abraço está de fato nos braços. existe algo que acontece ali no meio e que, ainda que na ausência, consegue viajar por aí. abraços viajam.

eu não quis saber o que estava escrito. porque bastava que você estivesse ali. assim como nos meus aniversários você poderia não me dizer nada, eu só estava feliz por passá-los com você. e aí, sim, você chegou.

quando eu vi, chorei. quando chorei, apareceu um arco-íris no céu. seria muito normal de minha parte lhe contar isso da forma mais instantânea possível. e, dentro da normalidade, não consegui repetir cenas de filmes em que a gente aguarda para ler quando está pronto, sozinho e no silêncio. foi ali mesmo que eu ‘não quis saber o que estava escrito’.

foi ali mesmo que cantei parabéns e comi o bolo e encerrei o aniversário – que me parecia com balões em falta desde o ano anterior.

só queria mesmo era lhe contar do arco-íris. porque nada mais precisa ser falado sobre nós que não seja algo muito feliz em um céu de aniversário.

eu te amo, thata. e fico contente de apagarmos essa luz juntas – e fecharmos a porta de outras tantas coisas. muitas vezes, ainda que a gente dance e sapateie sem sair do lugar, o que se quer perguntar é: como está a sua vida?

onde quer que esteja no mundo, estou e estarei sempre te mandando amor.

“Vou te amar para sempre porque crescemos juntos. E você me ajudou a ser quem eu sou. Eu só queria que você soubesse que sempre haverá uma parte de você em mim e sou grato por isso. Seja lá quem você se tornou, onde quer que você esteja no mundo, estou te mandando amor. Você é minha amiga até o final.” (“Her” de Spike Jonze.)

sensações 68, 69 e 70 de 365

a ideia de registrar 365 sensações boas – ou não tão boas – surgiu da constatação – ou da dúvida – de que é possível encontrar em cada dia um momento muito singular, prazeroso ou doloroso, que instantaneamente pode ser descolado de todo o resto.

contudo, apesar de passar mais de 12 horas por dia conectada a internet por computadores e dispositivos móveis, nem sempre – quase nunca! – consegui me segurar no objetivo de atualizar minha lista de sensações diárias.

antes do natal do ano passado, fiz minha primeira tatuagem (68). minha américa latina invertida (do torres garcía) foi muito bem pensada e planejada. sempre fui avessa a desenhar em meu corpo muito por acreditar que acabaria toda escrita e pintada. a obra do pintor uruguaio apareceu reunindo em um só desenho uma porção de significados – e permitiu, assim, que eu fizesse meu primeiro rabisco aos 23 anos.

o momento para a tatuagem era oportuno. em dezembro, eu estava de malas – e mente – prontas para uma fantástica viagem de travessia (69). se toda e qualquer viagem carrega possíveis entrelaçamentos e encruzilhadas, cruzamentos, a minha passagem do chile para a argentina por terra  – e não pelos ares – ressignificou caminhos já percorridos por mim e em mim.

como sensações que são e que permanecem, vão é o esforço no empilhamento de palavras. impossível, assim, descrever em poucas linhas, ainda que com certa distância temporal, o fim de maio em paraty (70). uma amiga, um feriado e duas passagens de ônibus – claro, alguma quantia no bolso – podem rechear o mais significativo álbum carregado por nós: o álbum da memória.

movido pelo método e por certo perfeccionismo, este rascunho tinha como simples propósito incluir três momentos-sensações que mereciam aparecer nessa lista amorfa que faz algum sentido para mim. a verdade é que ao desejo de lembrar e registrar se sobrepõe o tempo que ocupamos com o vivenciar. ainda bem.