sensação 72 de 365

chorar por uma perda maior do que me cabe. morre antonio candido, aos 98 anos. esta é uma sensação que parece tola, mas é sentida como um enorme (        ).

das mentes mais lúcidas, revolucionárias e afáveis. extremamente inteligente e fundamental para se pensar literatura e sociedade.

estava lendo hoje de pilar del río, sobre a biblioteca de saramago, agora cedo: “e no dia em que não mais estivermos aqui, que os livros continuem juntos o tempo que possam continuar juntos”.

ainda bem que continuamos a ter antonio candido. e falta sempre fará. dói estranhamente. mas passa o que tem de passar.

Thalita

(ou sensação 71 de 365)

whatsapp-image-2016-11-10-at-10-06-57

seu e-mail me deixou muito feliz. na hora em que ele chegou, eu senti que havia aparecido pra festa a pessoa que faltava pra eu cortar o bolo do meu aniversário – ainda que não estivesse acontecendo nada exatamente no momento.

no instante em que sua mensagem chegou, eu senti cócegas nas pernas, uma onda gelada me subiu pelos braços e eu senti medo e amor. mas você havia chegado. no momento em que vi a notificação de sua mensagem, fui teletransportada para o lugar em que você me notificava o tanto de dias que faltavam para eu ficar mais velha.

e, no momento em que eu vi o seu nome na mensagem, senti que nunca o abraço está de fato nos braços. existe algo que acontece ali no meio e que, ainda que na ausência, consegue viajar por aí. abraços viajam.

eu não quis saber o que estava escrito. porque bastava que você estivesse ali. assim como nos meus aniversários você poderia não me dizer nada, eu só estava feliz por passá-los com você. e aí, sim, você chegou.

quando eu vi, chorei. quando chorei, apareceu um arco-íris no céu. seria muito normal de minha parte lhe contar isso da forma mais instantânea possível. e, dentro da normalidade, não consegui repetir cenas de filmes em que a gente aguarda para ler quando está pronto, sozinho e no silêncio. foi ali mesmo que eu ‘não quis saber o que estava escrito’.

foi ali mesmo que cantei parabéns e comi o bolo e encerrei o aniversário – que me parecia com balões em falta desde o ano anterior.

só queria mesmo era lhe contar do arco-íris. porque nada mais precisa ser falado sobre nós que não seja algo muito feliz em um céu de aniversário.

eu te amo, thata. e fico contente de apagarmos essa luz juntas – e fecharmos a porta de outras tantas coisas. muitas vezes, ainda que a gente dance e sapateie sem sair do lugar, o que se quer perguntar é: como está a sua vida?

onde quer que esteja no mundo, estou e estarei sempre te mandando amor.

“Vou te amar para sempre porque crescemos juntos. E você me ajudou a ser quem eu sou. Eu só queria que você soubesse que sempre haverá uma parte de você em mim e sou grato por isso. Seja lá quem você se tornou, onde quer que você esteja no mundo, estou te mandando amor. Você é minha amiga até o final.” (“Her” de Spike Jonze.)

sensações 68, 69 e 70 de 365

a ideia de registrar 365 sensações boas – ou não tão boas – surgiu da constatação – ou da dúvida – de que é possível encontrar em cada dia um momento muito singular, prazeroso ou doloroso, que instantaneamente pode ser descolado de todo o resto.

contudo, apesar de passar mais de 12 horas por dia conectada a internet por computadores e dispositivos móveis, nem sempre – quase nunca! – consegui me segurar no objetivo de atualizar minha lista de sensações diárias.

antes do natal do ano passado, fiz minha primeira tatuagem (68). minha américa latina invertida (do torres garcía) foi muito bem pensada e planejada. sempre fui avessa a desenhar em meu corpo muito por acreditar que acabaria toda escrita e pintada. a obra do pintor uruguaio apareceu reunindo em um só desenho uma porção de significados – e permitiu, assim, que eu fizesse meu primeiro rabisco aos 23 anos.

o momento para a tatuagem era oportuno. em dezembro, eu estava de malas – e mente – prontas para uma fantástica viagem de travessia (69). se toda e qualquer viagem carrega possíveis entrelaçamentos e encruzilhadas, cruzamentos, a minha passagem do chile para a argentina por terra  – e não pelos ares – ressignificou caminhos já percorridos por mim e em mim.

como sensações que são e que permanecem, vão é o esforço no empilhamento de palavras. impossível, assim, descrever em poucas linhas, ainda que com certa distância temporal, o fim de maio em paraty (70). uma amiga, um feriado e duas passagens de ônibus – claro, alguma quantia no bolso – podem rechear o mais significativo álbum carregado por nós: o álbum da memória.

movido pelo método e por certo perfeccionismo, este rascunho tinha como simples propósito incluir três momentos-sensações que mereciam aparecer nessa lista amorfa que faz algum sentido para mim. a verdade é que ao desejo de lembrar e registrar se sobrepõe o tempo que ocupamos com o vivenciar. ainda bem.

 

Você foi a minha primeira pessoa a receber meu blusão em um dia frio

Sempre tento escrever alguma coisa nos últimos oito de maio. Parece muito pouco pegar o telefone, falar palavras doces, dizer que sinto saudade e desligar. O que rascunho por aqui não chega nela, nem sei se um dia vai chegar. Embora venha com ares de fracasso, vale a tentativa de externar algo meu. Talvez falemos melhor de coisas que não nos são próximas. As palavras titubeiam diante dos sentimentos. Cambaleantes, muitas vezes fraquejam.

Já são 12 anos, Mari. No telefone, pedi para que você fizesse o tempo passar mais devagar, porque já são 12 anos para você e 22 para mim. Pedido egoísta. Até hoje fico ansiosa para os meus seis de novembro. Adoro aniversariar, gostaria de ter mais aniversários durante o ano. Perguntei como fora seu dia. Você me disse que foi à escola, ao shopping com as amigas e que tomaram sorvete. Senti um nó na garganta, aquele nó que faz com que as pálpebras pisquem com os olhos levemente lacrimosos. Eu me lembro de quando ia ao shopping, dar voltas e mais voltas, com os braços enganchados aos das amigas, numa grande corrente. Não sei se ainda é assim que se faz. Quando encontro minhas amizades antigas, hoje optamos pelo café ou pela grama do parque. O tempo passa mesmo.

Do seu nascimento pra cá, acumulei quatro datas para refletir sobre o meu tempo. Veio você, depois Marcelinho, um dia chegou Lucas e, agora, tem o Pedrinho. Mas é seu aniversário que sempre me comove. Seu oito de maio foi um marco para mim. Tento traçar uma linha de entendimento, mas raramente eu consigo sair do lugar. Eu tinha 10 anos quando descobri que chegaria alguém novo na família.

Minha mãe diz que desde muito cedo me contentei em ser filha única. Sempre gostei do espaço entre o “sozinho” e o “estar com meus amigos”. Era questão de escolha, e minhas melhores amigas estavam todos os dias comigo. Com a idade (este fatídico passar do tempo), mais ou menos na esquina da adolescência com a vida adulta, você começa a se questionar sobre como é viver mais para frente sem um irmão. Claro, os amigos que adotamos assinam contratos de irmandade. E a vida sempre lhe presenteia com pessoas incríveis e maravilhosas, como grandes encontros e futuros companheiros. Mas, melhorando a pergunta, como é viver com um irmão?

Quando eu tinha 10 anos, não assustei-me só porque viria alguém novo. Ciumenta, não achei lá muito vantajoso a minha tia (e madrinha) ter uma outra nobre função. Tive ciúmes até do namorado, futuro marido, dela. Aquela barriga que começava a crescer despertou a minha curiosidade. Sem saber, ali estava a minha irmã.

Não me recordo mais de como era o mundo em que só nós existíamos, Mariana. Hoje estamos numa situação de leve desvantagem: somos duas e eles são três. O cara da vez é Pedro. Você, com seus doze anos, já está naquela fase engraçada e veloz da pré-adolescência. E eu, de uns anos pra cá, consegui vislumbrar, embora ainda procure pelas palavras certas, um pouco do processo.

Você foi a minha primeira pessoa a receber meu blusão em um dia frio. E eu passei a entender o que toma posse “dos adultos” quando eles nos colocam para o lado da calçada, quando eles, mesmo de regata, tiram seus casacos e nos obrigam a vesti-los. Eu, acima de tudo, senti esse dever, essa necessidade imensa, de proteger alguém. É incrível – e impassível de circunstâncias e situações. Existe um pequeno espaço de tempo onde nada mais importa a não ser aquela pessoa.

Lembro-me de quando você ainda tinha seus três anos. Era uma passagem de ano. Natural de criança tomada pelo enfado, você logo dormiu e foi colocada num dos quartos do lugar. Todo mundo festejava, havia muita gente com quem conversar, mas eu queria você. Decidi lhe acordar, com leves cutucadas, chamamentos para brincar. Convite aceito. Segurei a sua mão e anunciei que você havia acordado sozinha. O relógio marcou dez minutos até você me denunciar com choramingos.

Do lhe acordar ao dia em que, você proibida de comer doces, coloquei chicletes na sua mão, foi-se um tempo com muitos significados. Você então era aquela pessoa para quem eu tiraria meu blusão no frio e obrigaria a vesti-lo. Não, não se trata de oferecer gentilmente um pouco do sorvete a alguém. É como ter o dinheiro para apenas um chocolate e, sem titubear, saber de quem ele deve ser. Não leva o instante de uma sinapse. Esse tipo de coisa não se mede na base dos pensamentos. É um pouquinho mais abaixo, levemente para o canto esquerdo.

No telefonema, você me disse que fora ao shopping. Eu disse que estava aguardando sua vinda para São Paulo. E aí eu senti, mais uma vez, a chegada dos seus doze anos. Às minhas felicitações, você agradeceu. No entanto, o seu “obrigada” não era mais de criança, Mari. Aquele “obrigada” instantâneo e acompanhado da timidez que a infância carrega. O seu “obrigada” já traz uma bossa, um “quéisso, não precisava” dos adultos. E, antes de desligar, pela primeira vez, o seu “eu te amo” veio antes que eu pudesse lhe dizer o meu.

Sim, Mari, você agora tem doze anos.