O amor segundo: Michelangelo Antonioni

– Creio que o amor limita a pessoa. Algo de errado que cria um vazio em volta.
– Mas não dentro.

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O amor segundo: Homem do Subsolo (Dostoiévski)

Durante toda a vida, eu não podia sequer conceber em meu íntimo outro amor, e cheguei a tal ponto que, agora, chego a pensar por vezes que o amor consiste justamente no direito que o objeto amado voluntariamente nos concede de exercer tirania sobre ele. Mesmo nos meus devaneios subterrâneos, nunca pude conceber o amor senão como uma luta: começava sempre pelo ódio e terminava pela subjugação moral; depois não podia sequer imaginar o que fazer com o objeto subjugado.

S. Bernardo

Talvez eu nunca tivesse visto “S. Bernardo” porque a vida me aguardava a indicação de Ricardo Ramos Filho, neto de Graciliano Ramos, a quem tive o prazer de dar meus ouvidos num encontro na última semana. Ele citou o filme, bem como os feitos pelo Nelson Pereira dos Santos.

O Paulo Honório de Othon Bastos não é o meu (e talvez não fosse o de Graça, pois ele não se dá a descrevê-lo fisicamente na narrativa). Madalena também não é a que formulei em minha mente ao ler a obra.

Assim como há “S. Bernardo” de Graciliano, há “S. Bernardo’ de Leon Hirszman a partir de Graciliano. E ele é magistral. Fiel a diversas passagens integrais do livro, algumas cenas, no entanto, superam as que eu havia montado com as descrições do próprio autor – como a de Madalena deixando a igreja, para citar apenas uma.

E justamente por isso é incrível superar a forçosa prosa da adaptação de obras literárias para o cinema – claro que com Hirszman não me arrisco em nada na afirmação. Mas esse diálogo é capaz de nos dar peças genuínas e preciosas.


Com o filme pronto, Caetano Veloso assina a trilha. Enquanto vê as cenas, entoa “esboços de melodias e pedaços de cantos soltos” – como ele mesmo a define.

 

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O que significa sair de casa para ver um filme sozinha?

(Texto publicado originalmente no Coletivo We Love.)

A excitação em buscar pelas fileiras o lugar marcado só não é maior que o alívio ao sentar na poltrona. Uma espécie de atenuação de tudo: dos ruídos da cidade, do fluxo de sensações que pensamentos irrefreáveis me causam, do mundo que me é alheio e indiferente. Como uma prazerosa suspensão temporal, duas horas equivalem a quilômetros de distância de qualquer esquina da minha vida.

Acredito que o cinema venha assumindo esse papel desde a adolescência – ou de quando estabeleci um hábito que ainda me é extremamente caro e valoroso: sair de casa para ver um filme sozinha.

Pode parecer um tanto quanto sorumbática a experiência, mas, para mim, é como que um ritual. É na sala de cinema que me permito transparecer, esconder, dissimular e compartilhar. Quando me sinto angustiada, ansiosa, melancólica ou se carrego uma felicidade sem fim, se me apaixono, se me inteiro: é no escuro, assistindo à vida dos outros, me jogando em outras histórias e temporalidades, que me realizo. E me safo.

Aliviar-se, penso aqui, deveria ser mania. Descobrir o que tem a capacidade de lhe preencher e esvaziar – processo duplo e conjunto – é saída de emergência e abraço. E pode ser vício a sobreposição de alívios. No ano passado, decidi que precisava fazer um outro furo na orelha (essa dos furos e orelhas já notei que devo ter certa prudência). Com o entusiasmo concentrado numa vermelhidão auricular, dividi com amigos que não queria ir ao compromisso que havia àquela noite, que estava tão contente que só poderia ir ao cinema.

Não há lugar de melhor acolhida. O olhar unidirecional e a trégua na vida que acontece fora de mim – em mim. Minha declaração de amor, assim, não poderia ser mais torta e embaraçada.

Todos os meus melhores e piores momentos combinam com a projeção de um filme. Da total comunhão, percebo que não importa o quanto que me ocupe da vida, o quanto que me ausente, me distraia, me enleve ou me desmorone, sempre há o instante em que denuncio: preciso ir ao cinema.

Pauso e recomeço.

Tua Cantiga

E, em meio à vozearia, o que perdemos é a inspiração lírica. Nem arte é feita apenas para acalentar – preferível que não! – nem autor deveria ser tão facilmente confundido com seu eu-poético (o tal do ‘eu’ que é lírico). Para isso, poderíamos relembrar com tenacidade as tantas personas de Fernando Pessoa… ou então as tantas vozes musicais de Chico Buarque.

E, nesta grande bulha, mata-se criador e criaturas. Bárbara, Lily, Teresinha, Beatriz, Ana, Joana, Geni, Carolina, Rita, Rosa, Cecília, Nina. Todas as Mulheres de Atenas.

Sou suspeita para falar do chico-compositor até o último fio de cabelo. Mas isso não me faz abraçar quem acha que ele é incriticável, como também nunca me deu identificação plena com todas as suas vozes femininas. Ou ainda livre passe em minha estante para seus livros.

Mas, assim, em torno da última melodia: sendo força de expressão ou não, que um dos méritos de ‘Tua Cantiga’, então, seja o de direcionar o olhar torto para esse homem – tão comum – que diz ‘largar filhos’. E que é um sujeito lírico, cantado pelo autor.

Tendo isso em mente, a grande crise se Chico traiu ou não as mulheres, se ele é deus ou demônio, se ele é agora de esquerda ou de direita, se ele é bom pai ou bom companheiro, tudo isso se dissipa.

E há um turvo lugar em que a tão essencial problematização vira apenas simplificação. E neste pequeno vão fica também a nossa capacidade poética.

Aproveito e deixo uma fala de Joana para Jasão, em ‘Gota d’Água’ (1975), de Chico e Paulo Pontes.

| Pois bem, você vai escutar as contas que eu vou lhe fazer: te conheci moleque, frouxo, perna bamba, barba rala, calça larga, bolso sem fundo. Não sabia nada de mulher nem de samba e tinha um puto dum medo de olhar pro mundo. As marcas do homem, uma a uma, Jasão, tu tirou todas de mim. O primeiro prato, o primeiro aplauso, a primeira inspiração, a primeira gravata, o primeiro sapato de duas cores, lembra? O primeiro cigarro, a primeira bebedeira, o primeiro filho, o primeiro violão, o primeiro sarro, o primeiro refrão e o primeiro estribilho. Te dei cada sinal do teu temperamento. Te dei matéria-prima para o teu tutano. E mesmo essa ambição que, neste momento, se volta contra mim, eu te dei, por engano. Fui eu, Jasão, você não se encontrou na rua. Você andava tonto quando eu te encontrei. Fabriquei energia que não era tua pra iluminar uma estrada que eu te apontei. E foi assim, enfim, que eu vi nascer do nada uma alma ansiosa, faminta, buliçosa, uma alma de homem. |