:: alguns pequenos comentários desordenados sobre ‘la la land’:

(acho que não tem o tal do spoiler, mas, se encontrar algum, corre a barra de rolagem bem rapidão ou fecha o olho.)

1:: é um musical sem voz. nem tanto porque o casal principal (emma stone e ryan gosling) cante razoavelmente bem, mas porque não há muita canção mesmo. em alguns momentos, cenas musicais parecem que poderiam durar mais. outros vários são de repetições de uma mesma música. ou seja, para mim, neste quesito, bem, bem fraco. (e, bom, eles não têm voz.)

2:: o roteiro falho. esteticamente bonito (muito!), o filme peca em momentos morosos, ausência do que contar e descuido com o conteúdo, que gera situações sem sentido. ex.: uma menina que vive – respira – para ser atriz, mas consegue esquecer de suas audições marcadas.

3:: o filme não é sobre o amor: é sobre escolhas. e escolhas que exigem uma espécie de abandono total de qualquer ideia de algo que possa ser construído em comum. ainda que em musicais eu vá super aberta para finais clichês, acho bem mais interessante quando se foge do padrão ‘felizes para sempre’. no entanto, o que fica das escolhas feitas em ‘la la land’, principalmente as de emma stone, é que elas poderiam englobar muito mais do que excluir. se na vida real é bem complicado julgar e condenar razões que levam a desistências, o filme deveria dar elementos, que estariam na construção do enredo e do personagem, para que as escolhas façam algum sentido. será mesmo que não se pode ter tudo? ‘agora eu vou por aqui, não tem jeito nenhum de você ir comigo, te amo, te amei, mas adeus’.

4:: por ser uma autocelebração de hollywood, além de esteticamente belo, o filme é cheio de referências. dá vontade de segurar um caderninho e seguir anotando.

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5:: cena de abertura: um aparente plano-sequência, com uma coreografia muito elaborada, mas que joga você no filme com um ar de comercial de refrigerante. aqui, espero que a sensação de som num baixo volume tenha sido apenas da sala em que eu estava. a sequência final (trágica e lindíssima) e uma cena de verão na piscina já valem o filme.

6:: o personagem de ryan gosling é o tipo branco que quer salvar o jazz. mas o recado dado em segundos pelo john legend resume bastante coisa sobre a vida – e sobre o jazz.

7:: acho a emma stone uma atriz muito talentosa e carismática. ‘la la land’ mostra bem isso. no entanto, no que diz respeito mesmo à música e dança, fiquei na decepção. outros musicais me vieram à mente – e pensei repetidas vezes em amanda seyfried. de qualquer forma, é roteiro. e eu fico com a ironia de no início do filme existir uma menção ao controverso oscar de melhor atriz levado pelo filme ‘shakespeare apaixonado’, que eu amo e tal, mas.

8:: fui com a cabeça abertíssima, pois a) gosto da experiência de ver musicais b) acho mesmo que pode ser um universo paralelo de muito amor e magia (hehe, sim, estou excluindo, por exemplo, ‘os miseráveis’) e c) não acho estranho todo mundo ir ao caixa eletrônico sacar dinheiro cantando, desfilar no metrô dançando ou fazer o café da manhã saltando porque são coisas que eu faria (e faço? hehe). ou seja, como isto aqui passa longe de ser qualquer crítica de cinema, deixo meu recadinho de que fui esperando mais e não saí dançando.

Thalita

(ou sensação 71 de 365)

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seu e-mail me deixou muito feliz. na hora em que ele chegou, eu senti que havia aparecido pra festa a pessoa que faltava pra eu cortar o bolo do meu aniversário – ainda que não estivesse acontecendo nada exatamente no momento.

no instante em que sua mensagem chegou, eu senti cócegas nas pernas, uma onda gelada me subiu pelos braços e eu senti medo e amor. mas você havia chegado. no momento em que vi a notificação de sua mensagem, fui teletransportada para o lugar em que você me notificava o tanto de dias que faltavam para eu ficar mais velha.

e, no momento em que eu vi o seu nome na mensagem, senti que nunca o abraço está de fato nos braços. existe algo que acontece ali no meio e que, ainda que na ausência, consegue viajar por aí. abraços viajam.

eu não quis saber o que estava escrito. porque bastava que você estivesse ali. assim como nos meus aniversários você poderia não me dizer nada, eu só estava feliz por passá-los com você. e aí, sim, você chegou.

quando eu vi, chorei. quando chorei, apareceu um arco-íris no céu. seria muito normal de minha parte lhe contar isso da forma mais instantânea possível. e, dentro da normalidade, não consegui repetir cenas de filmes em que a gente aguarda para ler quando está pronto, sozinho e no silêncio. foi ali mesmo que eu ‘não quis saber o que estava escrito’.

foi ali mesmo que cantei parabéns e comi o bolo e encerrei o aniversário – que me parecia com balões em falta desde o ano anterior.

só queria mesmo era lhe contar do arco-íris. porque nada mais precisa ser falado sobre nós que não seja algo muito feliz em um céu de aniversário.

eu te amo, thata. e fico contente de apagarmos essa luz juntas – e fecharmos a porta de outras tantas coisas. muitas vezes, ainda que a gente dance e sapateie sem sair do lugar, o que se quer perguntar é: como está a sua vida?

onde quer que esteja no mundo, estou e estarei sempre te mandando amor.

“Vou te amar para sempre porque crescemos juntos. E você me ajudou a ser quem eu sou. Eu só queria que você soubesse que sempre haverá uma parte de você em mim e sou grato por isso. Seja lá quem você se tornou, onde quer que você esteja no mundo, estou te mandando amor. Você é minha amiga até o final.” (“Her” de Spike Jonze.)

Os cupins deles e a nossa autocrítica alheia

A nossa especialidade é a autocrítica alheia e a reflexão procrastinada. Estamos desde a, agora remota, chegada de Dilma Rousseff à presidência reafirmando o hoje – e o ontem e o amanhã – como momento oportuno para o exercício da reflexão. Entretanto, seguimos histéricos e em debandada sem nada pensar. Ainda mais, nesta manhã de ressaca – mais uma -, colocamos no centro da mesa o ponto de nos retirarmos para a consciência. O único detalhe é que: já fomos retirados.

Ainda que busquemos desejosos um caminho alternativo, o da oposição fortalecida e combativa que já foi o nosso lugar, nos concentramos em trivialidades e coisas pequenas. Sinceramente, o terrível privatista João Doria é dos problemas menores: porque ele é resultado – e daqueles já desenhados há um tempo. Afinal, o candidato tucano só não levou em duas zonas eleitorais na cidade de São Paulo – e perdendo para Marta Suplicy. Não é possível que esse tipo de constatação só possa ser percebida diante da inevitabilidade. Porque a faixa congratulatória não é toda do Doria: o prêmio vai para o antipetismo.

Entretanto, a estratégia política da adoção de um discurso que nega a política em meio a um movimento de ódio à política funciona muito bem. Contar com rios de dinheiro para financiamento próprio também. Apesar das maravilhas da internet e do suposto ostracismo da tv, ter tempo majoritário no horário eleitoral é outro item no pacote do sucesso. A própria Luciana Genro, candidata do PSOL à prefeitura de Porto Alegre, foi do favoritismo ao quinto lugar em um mês – e atribui a isso também o pouco tempo de tv (http://bit.ly/2cMxzF4).

Isso tudo porque o conservadorismo configura-se como uma onda a abater muito mais que o condado de São Paulo. Afinal, é preciso lembrar que Fernando Haddad foi apenas um dos poucos pontos fora da nossa ritualidade oligárquica e pomposa – junte a ele Marta Suplicy em 2001 e Erundina em 1989, ambas eleitas pelo PT.

O que assustou mesmo no resultado da disputa eleitoral para a prefeitura da cidade foi a decisão logo no primeiro turno – sendo a primeira desde o período da redemocratização. Estava confiante no crescimento do Haddad dos últimos dias. Tanto por ser fato dado como por certo descrédito que tiro das pesquisas de opinião. A cegueira, contudo, é escolha nossa reforçada por timelines de redes sociais que só nos mostram a nós mesmos. A boca de urna apontava um Doria gigante, mas, esperançosos, também vimos um Haddad melhor do que estava, seguindo para um segundo turno que não se desenhava mais já na noite do sábado (http://bit.ly/2d8OEVO).

Seguimos repetindo, com a permissão que nos concede a manhã seguinte, as hipocrisias de nossos vencedores quando perdedores. Ao invés de usar a soma de abstenções, nulos e brancos para refletir sobre a que se deve o descrédito da política entre nós (http://bit.ly/2cMzHMQ), colocamos a conta em comparação com o resultado do primeiro lugar buscando talvez uma invalidação como escapatória. Vale lembrar: o que tentaram fazer para deslegitimar a vitória de Dilma Rousseff.

O lugar em que estamos pode não ser dos melhores (e não muito diferente do resultado geral, é tão claro isso), mas brincamos com o desespero de ir para o Rio de Janeiro onde tem Marcelo Freixo (aliás, grande consolo da noite, preciso dizer) ou para qualquer lugar onde não haja esse comportamento odioso da tal elite do Tucanistão. Elite? Mesmo?

Nesta eleição, e falando aqui especificamente do centro São Paulo-Rio – ainda que se faça necessária uma visão nacional -, debatemos a validade do caminho do voto útil, a hipocrisia de votar com convicção diante do cenário atual, mas, de certa forma, concordando com o ex-ministro Renato Janine Ribeiro, o sangramento de partidos que não estão à altura de seus eleitores que migram e levam em conta a conjuntura é iminente.

No mais, o debate deve continuar, ser reforçado e não cair pura e simplesmente no discurso de palavras vazias, de gritos de ordem que nada dizem. Ou então berraremos, em meio a uma profunda crise semântica, até 2018. O que podemos dizer de hoje é que Geraldo Alckmin logrou atingir seu objetivo menor, mas que ainda falta muita aderência para a sua meta maior. Vale lembrar também que não são só as estruturas do PT que encontram-se em colapso – sim, é sempre bom colocar o papel da mídia em um discurso de ódio que dura bem mais de 13 anos -, mas o próprio bem-estar do segundo partido – já rachado – responsável pela mentalidade brasileira dual.

Não vale aqui jogar os acertos e os erros de Fernando Haddad, suas presenças e ausências, até porque é para outro momento mais qualificado e plural, mas foram bons anos de São Paulo – falando por mim e com o ceticismo de quem acha que qualquer representante do partido mais omitido pela imprensa, a quem pesa evidências de corrupção, que se vende como empresário-trabalhador e que se vale do afastamento da política para fazer política não pode ser lá coisa boa.

Por fim, compartilho aqui o próximo domingo: http://bit.ly/2dE6B3T – e divido a alegria de ver muitos resultados positivos ao PSOL, partido que não se vale de bolsos endinheirados, de presença certeira e cativa na tv e que vem subvertendo a lógica do ‘fica quem já está’.

aquarius

‘aquarius’ não é só o filme, mas o contexto em que foi lançado e exibido. aí podemos encontrar méritos e dificuldades (o de analisar simplesmente o que está em cena, por exemplo).

bem, assim como o que é falado por kleber mendonça filho, imbuído de seus recursos cinematográficos, nunca está apenas na trama principal. na verdade, sempre o que mais me prende em suas histórias são os detalhes – e as questões camufladas. ademais, superando as limitações da tela, o diretor nem sempre está expondo tão somente suas personagens: kleber, em diversos momentos, nos coloca em situações incômodas. nós, que nos dizemos tão livres de preconceitos e tão abertos para o mundo. tão intelectuais e tão acima.

ou seja, é um importante retrato – estrutural – de nossa sociedade brasileira? sim. sobretudo, é um importante espelho.

de qualquer forma, o que mais espero é que ‘aquarius’ leve muita gente a ver ‘o som ao redor’, uma tremenda joia (e, para mim, ainda melhor).

um jorro virtual

[16:49 – 16:54, 9/9/2016]

eu estava tão genuinamente feliz lá. quero essa felicidade. talvez você seja uma das poucas pessoas com quem eu tenha tido um momento singular. estou sempre pensando em como agir com determinadas pessoas, sempre antevendo futuros com outras, sempre recorrendo a passados. e ali eu simplesmente estava, sem roteiro.

por que a gente roteiriza a vida? eu faço isso demais, e essa é uma das minhas qualidades, acho eu. gosto de histórias, de criar histórias. eu romantizo a cidade.

mas por que roteirizamos no sentido negativo também? por que estabelecemos protocolos? por que os seguimos? eu sempre critiquei convenções sociais, sempre agi à revelia, em parte por ingenuidade, em parte por rebeldia, mas, paradoxalmente, sempre me vi empunhando convenções. sempre me vi jogando, narrando, direcionando. quando, na verdade, o prazer está em se deixar.

em se perder.
em não pensar.
em não ver.
em não temer.

existe uma sensação tremenda no deixar-se.
porque a gente se acha. a gente se acha é com os outros.
contudo, antes de mais nada, genuinamente, deixar-se.
será que é possível?